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Aprenda a contar as bênçãos
“A paz de Deus, para a qual fostes chamados (Jesus), em um corpo (a igreja), domine os vossos corações e sede agradecidos”. Colossenses 3:15
Há um hino bastante conhecido, que diz: “Conta as muitas bênçãos; conta quantas são; recebidas da Divina Mão.... e verás, surpreso, quanto Deus já fez. Ao iniciarmos a leitura de um best-seller, esperamos que, no mínimo, a historia contada envolva-nos desde o principio. Se, logo no começo de sua obra, o autor não for capaz de embarcar-nos no enredo, transportando-nos para o cenário no qual os fatos se desenrolam, ele corre o serio risco de fazer com que desistamos de seguir adiante.
A Bíblia não e' diferente. O primeiro livro, Gênesis, inicia a narrativa bíblica em grande estilo, descrevendo com detalhes toda o encanto da Criação. Boquiabertos com a perfeição da natureza criada, viajamos através de uma magnifica historia na qual o homem vai descobrindo seu papel no mundo. Terminado este, passamos para o livro do Êxodo - a saga de um povo que, fugindo da fome e miséria, busca abrigo numa terra alheia. Escravizados e no limiar da sobrevivência humana, lutam por sua fé e ideal, conquistando, com isso, sua liberdade. Já' o terceiro livro, Levítico, é o Código da Santidade, na qual as leis são estabelecidas, proporcionando ao povo recém-nascido a oportunidade de conviver pacificamente, com base na ordem, justiça e moral. Todos magistralmente elaborados, envolvendo seus leitores desde as primeiras palavras.
No entanto, ao iniciarmos, a leitura do livro de Números, que em hebraico se chama, Bamidbar (no deserto), e que quando de sua tradução para o grego ficou conhecido como "Aritmoi" (Números). Em vez de novas aventuras, a Bíblia faz uma pausa e começa a falar em números: "Recebei a soma de toda a congregação dos filhos de Israel, por suas tribos, segundo os seus pais, segundo o número dos nomes, todo homem cabeça por cabeça" (Números 1:2). No lugar de milagres, fantásticas aparições, emocionantes batalhas, Deus ordena que Moisés, no deserto (daí o nome em hebraico), faça um censo do povo (por isso Números). A menos que o leitor seja aficionado por matemática ou antropologia, o texto com o qual inicia esse Livro, pode parecer, `a primeira vista, extenuante e nem um pouco inovador. Afinal, qual é a relação entre o deserto e o numero de pessoas que lá estavam? Faria alguma diferença saber, no segundo ano após a saída do Egito (ainda faltavam 38 para chegarem `a Terra Prometida), quantas pessoas havia no povo? Onde está o "glamour" típico das grandes obras?
O deserto é lugar extremamente complexo para os israelitas. É lá que eles se tornam um povo, transformam a si mesmos de escravos em homens livres, aceitam e rebelam-se contra Deus, recebem a Lei, bem como as punições por sua desobediência. O deserto, ao mesmo tempo, nada mais é que uma projeção de nossas próprias vidas. Quantos de nos não cruzamos o "deserto" das aflições, sofrimento, problemas e desilusões? A complexidade de nossa existência faz com que, muitas vezes, nos sintamos em meio a uma inóspita e árida região, perdidos no meio do nada, isolados, sem qualquer perspectiva de melhora. Os israelitas, por mais que estivessem a caminho da Terra Prometida, ainda estavam muito longe dela. Ainda teriam muitos obstáculos a transpor, muitos desafios a enfrentar. Coloquemo-nos em seus lugares: o que passaria em nossas cabeças se estivéssemos caminhando pela "terra-de-ninguem" e alguém dissesse : "olha! Ainda faltam 38 anos para você ter sua casa, sua vida, paz e tranqüilidade"? A terra, por mais que prometida, ainda lhes era uma utopia.
`As vezes sentimo-nos assim, perdidos num revolto mar de problemas e frustrações. Por mais que tenhamos a "promessa" de dias melhores, abaixamos as cabeças e lamentamos nossa sorte. "Onde esta' a benção?", perguntamos. Estamos sozinhos, sem ninguém para nos ajudar. Será?
Por falar em deserto, conta-se sobre o viajante que nele estava perdido. Desiludido, com fome e sede, já havia perdido qualquer esperança de salvação. A iminente morte era sua única companheira. De repente, com suas ultimas energias, ergueu seus olhos e ao longe avistou o que parecia ser um milagre: um oásis! Para lá correndo com as forcas que lhe restavam, saciou sua sede com a água de um pequeno lago e alimentou-se com as frutas de uma majestosa arvore que crescia bem no meio daquele paraíso. Satisfeito, deitou-se `a sua sombra para descansar.
Ao despertar, antes de seguir viagem, voltou-se `a arvore e disse: "Arvore, como abençoá-la? Se desejar que você produza deliciosos frutos, você já os tem! Se pedir que tenha uma sombra capaz de reanimar os viajantes que por aqui passem, você já a tem! Portanto, árvore, quero abençoá-la com a única bênção que posso lhe dar: que você continue sendo do mesmo jeito que é!
O censo feito não era para saber QUANTOS eram, mas QUEM eram. Quando se atravessa o deserto, não importa o numero de cada um, mas sim o valor que cada um representa individualmente. Enquanto a Terra Prometida não passasse de uma promessa, o povo só teria a si mesmo. A contagem, segundo nossos mestres, era para mostrar o quão querida cada pessoa era.
Em nosso dia-a-dia, estamos tão acostumados a apenas "enumerar" as coisas em vez de "chama-las" pelo nome. Somos o numero de nosso RG, nossa matricula na faculdade, nosso crachá no trabalho, etc. Tudo parece tão distante, tão impessoal - tudo apenas "mais um"- que, quando os problemas nos tomam de assalto, sentimo-nos ilhados e solitários. Estamos perdidos no deserto sem qualquer esperança de solução. Perguntamos: "onde está a bênção"? Parece que ela não veio para nós.
O livro de números ensina algo fabuloso: a benção está mais próxima aos seus olhos do que você imagina. Conte as pessoas que estão ao seu lado. Sua família, seus amigos... Mas não as conte quantitativamente, mas sim qualitativamente. Procure e verá que elas estão com você nessa jornada.
Eles são seu oásis do jeitinho que são, sem mais nem menos. Antes de seguir adiante na estrada da vida, pare e faça uma minuciosa contagem do que (para não dizer quem!) esta' `a sua volta. Você se surpreendera' com o resultado! Isto se reflete ainda mais na linguagem utilizada nesse texto. No hebraico existem varias formas de se dizer "contar": LIMNOT, LISPOR... mas o texto usa LASSET, que também significa elevar. Quando valorizamos o QUEM dentro do QUANTO, estamos elevando o numero `a condição de ser, significativo e especial. Vamos aprender a contar a bênçãos que nos rodeiam. Pois elas estão aí, apenas esperando serem redescobertas.
Missionário Mauricio Picarelli |